Chauás – Expedição Chauás Peruibe 120km

Largada Chauás 120km -Peruibe 2017

Chauás – Expedição Chauás Peruibe 120km

Já havia fechado meu calendário de provas de aventura para 2017 e iniciando a periodização para o ARWS de Belize, quando ouvi pessoalmente do mestre Caco Fonseca da Selva Aventura que a prova de Belize será difícil na navegação.

Com isso em mente e com a prova do Chauás Expedição – Peruíbe batendo na porta, logo pensei que não havia melhor forma de treinar navegação do que em uma Expedição Chauás. Além da prática de técnicas de “Coaching de desenvolvimento” ao longo das provas, graças aos constantes feedbacks de Marcos Cardoso da Sala2.

Equipe Teiú Aventura – André Pinheiro, Carla Porto, Ude e Leandro Fredericci

Formação da Equipe
Primeiro liguei para a Carla Porto. Ela disse que iria pensar e antes de ligar pro Ude, ela me retornou e disse: – Eu topo.
Ao fala com o Ude, surpresa: – Cara, é meu aniversário no dia da prova e 40 anos, emblemático!!! Mas eu topo mesmo assim!! Por último, mas não menos importante foi o André Pinheiros, que como todo bom engenheiro, pediu um tempo pra analisar…rsrs!!! Ele também topo.
Ótimo, equipe montada! Como a prova estava muito perto, não tivemos tempo hábil para treinar juntos. Então iríamos direto para o Chauás testar a equipe.

Alinhamento de Expectativas
O grupo pediu um encontro para alinhamento das expectativas antes da prova. Tenho a impressão que eles estavam com receio que eu ficasse atormentando por um ritmo forte o tempo inteiro.
Eu acreditava que não houvesse necessidade desse encontro, mas como o grupo todo achou importante, nos reunimos e na verdade foi muito esclarecedor para todos, mudando meu ponto de vista inicial. Saimos com check-list dos equipamentos, seus respectivos responsáveis, e principalmente com alinhamento da nossa postura na prova, respeitando o ritmo da equipe, parceiros e competitivos. Coloquei a meta de ficar entre 5º a 7º lugar!!!

Prova
Chauás é sinônimo de perrengue, rasga-mato e auto-suficiência. Tanto que não rola apoio próprio (carro com comida, roupa extra limpa e ajuda ao longo das áreas de transições “AT” permitidas) como meus companheiros de equipe estão acostumados. Os mapas também não vem com os pontos de controles (PCs) marcados no mapa, é necessário pegar as coordenadas e triangular no mapa. Se marcar errado, também vai procurar no lugar errado nas trilhas. Enfim, largamos às 10h da manhã de 11/11.
A prova começou com um trekking rápido, navegação difícil e trilha bem fechada. Logo nesse início já deu pra sentir o ritmo de prova e da equipe. Logo no início optamos por uma trilha com navegação difícil  para ir ao AT da bicicleta, sendo que havia a opção de ir pelo asfalto, mas como sabia que nosso ritmo é mais lento comparado aos adversários, resolvi aproveitar ao máximo as possibilidades de navegação. Chegamos a poucos minutos após a equipe Saci que estava num bom ritmo, afinal meu pupilo e parceiro Thiago Martins estava na equipe, emprestado.
Fizemos a bike num ritmo bom, conseguindo até fazer um escalera (troca do ponteiro no pelotão em linha) nos trechos de asfalto.

Mantendo o plano
Na metade da perna de mountain bike havia um navegação relativamente duvidosa, vimos equipes fortes batendo cabeça, mas mantivemos firmes na nossa navegação e conseguimos fazer esse trecho sem cometer erros. Apesar da diferença que fizemos nas escolhas de percursos não conseguimos manter nossa posição, pois nossa atleta Carla Porto ainda está se aperfeiçoando nas descidas e tínhamos que aguardá-la. Isso não foi um problema, afinal já sabia dessa condição desde que montei a equipe. Saímos desse trecho mais complexo e chegamos ao ponto de controle (PC) 07, um pesqueiro, onde fizemos um parada para um lanche rápido. Retornamos num ótimo ritmo para o estradão, mas não conseguimos manter a mesma qualidade empregada no mesmo trecho ao irmos para os demais PCs. Ainda deixei passar a entrada que encurtaria cerca de um quilômetro, mas de certa forma não foi de todo mal, pois o trecho reto permanecia no asfalto e calçamento. Fizemos a subida do Morro do Guaraú em partes empurrando as bicicletas, mesmo assim desgastou bastante a equipe. No estradão plano que leva a Barra do Una (litoral sul), resolvemos parar e comer com calma, mesmo estando a poucos quilômetros do AT. Foi ótimo, pois retomamos melhores, alimentados e hidratados.

 

 

Trekking Rasga-Mato

Trekking mais complicado da prova.

No final do entardecer por volta das 19h/20h de 11/11, chegamos ao AT2/PC8, deixamos as MTB e saímos para o trekking que prometia ser o mais pesado da prova. Ao sairmos disse para levarmos bastante comida, pois poderíamos levar umas 6 horas para retornar ao AT. Optamos em sair para o lado norte e no caminho encontramos já retornando desse

Mapa da prova Chauás Peruibe

perna de trekking o atleta solo Caco Fonseca da Selva Aventura, que nos disse que ainda não sabia por qual lado era mais difícil (sul ou norte), porque ambas eram bem complicados. Mantivemos nosso planejamento, principalmente sabendo que iríamos fazer esse trecho no escuro. Logo batemos no PC9 e até ali éramos a 5ª equipe. Ficamos animados, afinal estávamos dentro da nossa meta e ainda havia muita coisa a acontecer, e as outras equipes poderiam ter optado por ir pelo sul. Cerca de uma hora após o PC9 começamos a bater um pouca de cabeça. A trilha perfeita terminava num curso d’água vinda de uma ravina na qual tínhamos que subir. Ficamos meio na dúvida, voltamos procurando uma entrada melhor naquela direção, mas não havia. Quando estávamos retornamos ao ponto um dupla nos passou e achou um picotinho ao lado da ravina que subida para direção correta. Os rapazes abriram e nós continuamos no ritmo da equipe. Nesse pedaço sabíamos que estávamos no rasga-mato do mapa (pontilhado vermelho que indica que não há trilha demarcada).

Superação Pessoal
Foi nesse ponto da prova que tivemos que atravessar uma velha ponte de madeira. Ela estava tomada pelo mato e aparentava estar lá a muito anos e talvez podre. Certamente era o melhor lugar para atravessar a ravina, que tinha um 2 a 3 metros de altura. De cara o André Pinheiro disse que não atravessaria, porque a ponta não era segura. Fui na frente com apoio em 4 (pernas e braços) para distribuir melhor peso do corpo na pequena e velha ponte e ajudar apoiando ao final da ponte os demais a atravessarem. Na sequência o André Pinheiro tomou coragem e passou. A terceira foi a Carla Porto, que com muito medo conseguiu iniciar a travessia, mas parou, um pouco antes do meio da ponte de cerca de 5 metros e começou a tremer e chorar. E foi nesse momento que se deu início a aplicação de métodos de coaching, através da “oferta” e “espera”. Posicionado à beira do outro lado da ponte, me abaixei o máximo que pude, praticamente me nivelando a Carla e comecei a conversar como ela. Disse que ela já havia decidido atravessar, mas que ela poderia voltar. Complementei porém que ela estava na metade, sendo melhor ela continuar, e que eu estaria logo ali para ajudá-la quando ela quisesse. Eu lancei a “oferta”, então o que tive que fazer foi “esperar”. O André, recém atravessado, o Ude ainda aguardando e eu ficamos ali aguardando sem falar mais nada, até ela tomar a decisão dela.
Depois um tempo ela disse: “Eu vou apoiar aqui”.
Ela aceitou a oferta, e sem dúvidas foi a coragem e superação pessoal dela que a fez seguir em frente e terminar de atravessar a ponte.
O Ude atravessou com receios, assim como todos nós, mas passou muito bem. Depois disso seguimos subindo até bater a altimetria que depois seguiria para descida por trilha. Chegamos na altura, mas não achamos a trilha e decidimos descer pela ravina que estava no paralelo da trilha, porém isso nos custo energia, paciência e uma dose de otimismo da equipe no caminho, afinal estávamos a uns 4h30 naquele trekking. Descemos um pouco e assim que possível viramos a direita para cruzamos com a trilha. E foi emocionante e um alívio bater na trilha e em seguida cairmos no caminho que nos levaria a estrada do AT. Fizemos essa trekking em 5h30min. E ao chegarmos no AT3/PC10, descobrimos que havíamos ganhado uma posição.

Canoagem
Fizemos uma transição lenta, mas valeu cada momento, porque cantamos parabéns ao Ude que nos prestigiou com seu 40º aniversário ao nosso lado, numa prova de aventura. Rolou até um mini-bolinho!!!

 

Início da canoagem. Final de tarde!!

Seguimos para canoagem de aproximadamente 16 a 18km nas canoas canadenses do Chauás, Carla e eu numa delas, e o André Pinheiro e Ude na outra. Fomos num ritmo constante e firme até o PC11 virtual, que está escrito Reserva Juréia-Itatins, Proibido Navegação, Área de Preservação (algo assim, não me recordo bem) e tínhamos que dizer o que estava escrito ao chegar no AT para comprovar nossa passagem por aquele ponto. No retorno já percebi que algo não ia bem com a Carla, afinal ela estava falando muito pouco. (isso não é normal para ela..rsrs). Perguntei o que está escrito na placa, e ela respondia falando muito baixo e até incompleto algumas delas. Ela estava com muito frio. Finalmente ao chegar no AT4/PC12, pensei que logo iríamos começar a correr e consequentemente esquentarmos.

Hipotermia
Ao caminharmos para as caixas de reabastecimentos que estavam nossas comidas e roupas secas, essa mulher desmaio e caiu na grama. Rapidamente o Lucas do Chauás que estava no AT a pegou pelos braços e eu pelas pernas e a colocamos desmaiada ao lado fogueira que aquecia a galera do Staff da prova. O Lucas apoiou a cabeça dela com todo cuidado no colo e dava leves tapas no rosto dela para ela voltar e pedia para ela falar com ele (mal sabe ele que ela fala para chuchu…rsrs). Um dupla que havia desistido, um outra dupla e um quarteto que também estava no AT pararam para ver a situação. Colocamos o cobertor térmico nela, fazendo um espécie de tela entre ela e a fogueira para aquecê-la.

Num dessas momento de insistências do Lucas para ela falar com ele, finalmente ela disse: – Oi.

Foi sensacional, pois todos que estavam ali comemoram.
Ela tremia muito, mas foi melhorando aos poucos. Trocamos a roupa molhada dela com um ligeira ajuda dela mesma. A alimentamos aos poucos e logo ela levantou pra trocar a calça num cômodo no AT. As demais equipes saíram, pois viram que situação estava controlada. Ao sair do cômodo, ela já saiu falando: – Quem tava me dando tanto tapa?! Nem nas minhas noites de namoro mais quentes eu tomei tanto tapa. (E rindo).

Pronto, ela estava melhor. Deixamos ela comer um pouco mais e agora ela o momento certo para perguntar:
– Carla, o que você quer fazer?!

Trabalho de equipe
No final de semana anterior a prova, fomos a casa de campo em São Francisco Xavier do Ude com uma amiga, Flavia Gatti, que levou a MTB, para pedalarmos juntos no dia seguinte à chegada na casa. Durante a noite ela disse que não iria pedalar, pois não queria atrapalhar, e que não estava treinando bike a algum tempo.
O Ude e eu decidimos treinar nossa capacidade conter situações de abandono. Decidimos fazer de tudo para que a Gatti não desistisse de pedalar conosco no dia seguinte.
Acordamos no horário, preparamos o café da manhã para ela, arrumamos a MTB dela (lubrificamos, enchemos os pneus, deixamos a vista), organizamos os equipamentos para pedalar (capacete, luvas, etc) e praticamos o exercícios da “espera”. Deixamos ela acordar, convidamos para tomar café conosco, aquecemos o lanche dela, servimos o café, e conversamos um pouco. Já estávamos prontos, vestidos para o pedal e com as MTB no lugar. Quando ela estava bem, acordada, de café tomado e ligada, perguntamos, vamos pedalar conosco?!
Pode ser por gratidão, por estar bem, por se sentir acolhida, ou qualquer coisa assim ela se sentia bem pra ir conosco. E certamente, esse “treino”, no ajudou a conduzir essa situação com a Carla.

Super Carla
Quando essa situação da hipotermia aconteceu, na hora, só pensamos em acolher a Carla, mas no primeiro “oi” dela, nossa cabeça não podia deixar de pensar: “- a prova acabou pra nós”.
No entanto, conduzimos com paciência, esperando a situação ir melhorando até chegarmos o momento para perguntar da forma certa, não impondo nosso desejo. – Carla, o que você quer fazer?!
E foi com muita alegria, realização de um trabalho de equipe, excelente formação de equipe e muita resiliência dessa mulher que ouvimos: – Vamos terminar essa prova.

EEEEEEHHHHHH CARLA!! Vambora!!!

Trekking Costeira
Depois de toda aquela situação saímos do AT4, umas 4:30 da madrugada de 12/11 para trekking final. Seguindo o Fran do Chauás, seria um trecho lindo pela costeira das praias de Barra do Una, Juquiá, Boquete, Arpoador até a Praia do Guaraú. Houve uma navegação considerável, principalmente no início desse trekking, e nas costas e pontas de praias também exigia atenção. Ao longo do caminho pegamos um nascer do sol MARAVILHOSO, em praias realmente desertas, inabitadas e pouco tocada pelo homem. 

A união da equipe Teiú Aventura no amanhecer após 21 horas de prova

Quando chegamos no PC 13, perguntei a Staff quantos quartetos estavam na nossa frente e ela nos disse que havia 5 equipes, logo a equipe que saiu na nossa frente após a Carla dizer “oi”, que seria a 6º colocada provavelmente havia se perdido. Nós estávamos em 6º lugar!
Como isso variamos entre trotes e caminhadas firmes até a travessia do rio, que deveria ser nadando cerca de 100 metros. Já era uns 7:45 da manhã, e havia staff do Chauás com botes para ficar de olho no atletas. Como já havíamos passado um baita perrengue horas atrás, pedimos para o Staff ao menos levar a Carla, mas ele disse que algumas equipes haviam atravessado com eles e não havia problema. Ao final caminhamos nas ruas de paralelepipedos e corremos na reta final de asfalto. Realmente fechando a prova em 6º lugar. 

Só tenho a agradecer aos meus companheiros de equipe e toda a harmonia para essa prova.

Levamos dessa prova e dessa equipe e temos que respeitar uns aos outros, no ritmo, no tempo de reação, oferecer ajuda, mas aceitar o tempo para aceitar essa ajuda ou até respeitar a decisão de não aceitar a ajuda e entender que a pessoa ainda não está pronta.

“Não nascemos prontos, vamos nos formando ao longo da vida” –  Mario Sérgio Cortella

Ú Ú Ú …………..TEIÚ!

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